o negócio da street art + urban gallery

A street art perdeu a aura de arte de contestação? Faz algum tempo que o bum do grafite e seus congêneres no Brasil alavancou a street art para a esfera da arte institucionalizada dos museus, estudada na academia, transformada em mercadoria de compra e venda nas galerias e em objeto de desejo de muita gente. Para os artistas isso foi e está sendo muito bom, como já aconteceu há algumas décadas fora do país com gente como Keith Haring (que teve bela mostra em São Paulo recentemente) e Jean Michel Basquiat e se intensificou com Banksy, Zeus e osgêmeos.

Quando só o capitalismo é a ordem mundial possível tudo vira mercadoria, e a arte certamente tornou-se um do ativo importante da economia global. A street art ganha destaque porque a arte contemporânea – no sentido mais formal – anda muito “conceitual” (dizem uns) e o público gosta da arte que se aproxima e faz parte do mundo dele. A street art é “palpável”, está no cotidiano das ruas das cidades que crescem sem parar. Ela virou uma bela mercadoria para galeristas e artistas, e uma ponte entre empresas, corporações e governos com a população (consumidora) de todas as camadas sociais. O grafite vem da periferia e se dissemina em bairros elegantes. A importância cultural, institucional e econômica da street art está posta.

Urban Gallery – Faz um tempinho que recebi um belo catálogo e uma gravura em estilo stret art, digamos assim, pelo correio. Junto veio o convite para falar/escrever sobre um projeto institucional que colocou uma boa dose de cores e formas no dia a dia de quatro capitais. Fora os interesses de marketing entre empresa e artistas, a Urban Gallery é uma bela associação empresa-arte que expõe atualmente obras de cinco artistas em tapumes de construções de edifícios em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Goiânia. A iniciativa é da Brookfield Incorporações com a Galeria Rojo e agência de ideias Ginga.

É interessante como a arte se impôs no meio urbano, deixou de ser considerada vandalismo – inclusive o pixo! Hoje os artistas que seguem a linha street art – são muitos e de todas as classes sociais – são chamados e remunerados para colocar cores e formas pela cidade, para suavizar o cotidiano, para “dar o seu recado”. Na Urban Gallery, os artistas selecionados do bom casting da Galeria Rojo – com sedes em Barcelona, São Paulo e Milão – são os norte-americanos Tofer Chin e MOMO, a espanhola Anna Taratiel aka OVNI, e os brasileiros Flávio Samelo e Santhiago Vieira aka Selon. Com diferentes backgrounds – desde cursos de belas-artes até fotografia – os cinco artistas têm em comum o bom uso das cores, sempre muito bem iluminadas, e as formas geométricas, da op art ao grafite “rabiscado” propriamente dito.

Atenção, corra para conferir os trabalhos da Urban Gallery porque como nas ruas, em breve as obras serão retiradas e apagadas. Abaixo um guia dos trabalhos da Urban Gallery pelo Brasil, nada como descansar com os olhos com arte!

Tofer Chin (EUA) - Edifício Brookfield Malzoni, Av. Faria Lima 345, São Paulo

MOMO (Estados Unidos) - Giroflex, Rua Acari 270-320, Santo Amaro – São Paulo

Anna Taratiel aka OVNI (Espanha) - Barra Business Center - Av. das Américas 3301, Barra - Rio de Janeiro

Flávio Samelo (Brasil) - Century Plaza, Rua Copaíba Lote 1 – Brasília

Santhiago Vieira aka Selon (Brasil) - Prime Tamandaré Office, Setor Oeste - Goiânia

Grafite paulistano – São Paulo é hoje um dos principais centros de irradiação do grafite, do pixo, do estêncil, do lambe-lambe. A Lei da Cidade Limpa que tirou a poluição visual publicitária da vista dos paulistanos impulsionou consideravelmente a street art na cidade. Quantas vezes já lemos entrevistas com artistas estrangeiros surpresos que aqui as autoridades deixam pintar os muros da cidade. Quantos artistas viraram gênios das artes plásticas pintando muros, bueiros, edifícios e túneis, e logo depois criaram instalações, pinturas e objetos para importantes galerias e museus mundo afora. Lembra quando trabalhadores da prefeitura de São Paulo pintaram de cinza um grande muro na avenida Radial Leste? Os caras taparam um mural enorme de osgêmeos. Comoção geral na cidade. Jornalistas ligaram pros gêmeos na mesma hora para contar o grande absurdo que a prefeitura havia feito. No final, a prefeitura pagou pros gêmeos repintarem o mural.

Quem não lembra da polêmica dos pichadores que atacaram a Bienal de São Paulo de 2008, a tal “Bienal do Vazio”? Nesse ano de 2010 eles retornam à Bienal, mas como convidados da curadoria e não como vândalos.

osgêmeos na parede do meu prédio, na Liberdade

Agora mesmo estou envolvido em um projeto que vai retratar o bairro do Cambuci fazendo um contraponto entre o modernista Alfredo Volpi e os irmãos gêmeos grafiteiros Otávio e Gustavo Pandolfo. Aliás, osgêmeos são os grandes expoentes brasileiros da arte de rua em âmbito internacional, principalmente depois das exposições nas galerias Choque Cultural e Fortes Vilaça, em São Paulo, que os catapultou para exibições nos melhores museus e galerias desde Nova York e Los Angeles até Londres, Berlim e Tóquio. Na atual exposição de fotografias do cineasta alemão Wim Wenders no MASP, destaca-se uma foto gigante tirada na República Tcheca de um túnel escuro com iluminadas personagens de pele amarela de osgêmeos. E o austero Masp foi palco de “De dentro para fora/De fora para dentro”, a primeira mostra de street art que o museu abrigou no início do ano, da qual roteirizei um vídeo ainda inédito do making of da exposição curada por Baixo Ribeiro, sócio da galeria Choque Cultural, e Teixeira Coelho, curador do Masp.

Mais recentemente, lembro da surpresa ao ver grandes paineis espalhados em edifícios do centro da cidade. Era a Street Biennale que rolou entre setembro e outubro num circuito entre o Vale do Anhangabaú e as avenidas São João e Rio Branco. Ao final da mostra, os grandes trabalhos de sete artistas (4 brasileiros, 2 franceses e 1 chinesa) foram retirados das paredes de concreto afloraram novamente. Também entre setembro e outubro outro evento internacional de street art tomou conta do MuBE – a 1 ª Bienal Internacional Graffiti Fine Art. A exposição reuniu 60 artistas de 12 países, o que mostra a força dessa arte globalizada, que hoje liga os grandes centros urbanos do planeta.

Afinal, é bom ou ruim a street art entrar no sistema do mercado cultural? Está aí uma pergunta com muitas respostas diferentes e conflituosas. Mas essa arte das ruas com certeza ganhou corações e mentes.

Para terminar a reflexão assista ao vídeo abaixo:

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Arquivado em Artes, artes plásticas, cidade, mercado, Variedades

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