Arquivo do mês: julho 2010

o sabor dos anos 80

Você nem imagina – Pra começar bem a sexta-feira, aqui vai a música “Teu Inglês” que fechou o show da banda Fellini ontem. Não resisti e acabei comprando, no final do show, o vinil do segundo álbum da banda, “Fellini só vive 2 vezes”, que eu cultuava aos 19 anos lá pelos meados dos anos 80. Aliás, Fellini acabou de gravar novo disco, que se chamará “Você nem imagina”, a ser lançado entre final de agosto e começo de setembro com capa do truta Fábio Spavieri. A banda está ensaiando há algum tempinho e Thomas Pappon largou Londres e está direto em São Paulo com esse novo projeto da banda.

E tenho dito – Antes do show foi jantar no delicioso Dalva e Dito. Como sempre, comida e atendimento de primeiríssima qualidade, tudo regido pelo chef Alex Atala. Na outra vez que estive lá comi um delicioso pirarucu e ontem fui de camarões com creme de mandioquinha. Esse foi o prato principal, antes provei uma salada de tomates com cebola e cavaquinha (peixe) num molho delicioso, e de sobremesa foram três bolas de sorvetes bem brasileiros – tapioca, umbu e papaya com pitanga!!! Tudo divino, maravilhoso! Aliás, o cardápio do Dalva e Dito faz a linha feijão-com-arroz, ingredientes brasileiríssimos de todas as regiões do país muito bem combinados e apresentados. Tem desde frango assado de televisão até moqueca de camarão, de polvo pururuca a salada de palmito com camarão. Com toques regionalistas, Atala criou um cardápio que inclui alimentos triviais nacionais com sabor de feito-lá-em-casa. O site ainda não está pronto, então segue o endereço do restaurante Dalva e Dito: Rua Padre João Manuel, 1115 – Jardins – São Paulo; telefone 3062-0238. E é bom frisar que os preços são honestos para o bom serviço que o restaurante presta.

As gostosas e brasileiríssimas pimentas do Dalva e Dito

Minha sobremesa: sorbets de sabores nacionais

Street pop art – Inaugura amanhã a super exposição “Selected Works” do artista norteamericano Keith Haring na Caixa Cultural, na Avenida Paulista. Haring é um dos ícones da pop art dos anos 80, frequentador da Factory de Andy Warhol, amigo de Basquiat e ativista da causa da Aids (como pode-se ver na imagem acima), que vitimou sua morte em 1990. Haring esteve no Brasil algumas vezes e pintou por aqui também, como dois painéis em Salvador.

Basquiat e Haring, em 1987

A mostra terá 94 obras nunca vistas no país e diversos itens pessoais do artista. O período expositivo em São Paulo é de 31 de julho a 5 de setembro na Caixa Cultural Paulista (no Conjunto Nacional). Depois, a exposição segue para a Caixa Cultural do Rio de Janeiro, entre 28 de setembro a 14 de novembro. Há chance da exposição chegar a Salvador, onde existem dois raros painéis de Haring, um deles necessita de restauro, plano que consta do programa da exposição.

Haring elaborou muitos murais públicos em prol dos direitos civis, caridade, hospitais, creches e orfanatos. Em 1989, foi diagnosticado com HIV e fundou a Keith Haring Foundation no ano seguinte para apoiar campanhas de prevenção do HIV e programas infantis. No Brasil, a Fundação está organizando programas educacionais sobre prevenção do HIV em parceria com a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) e APTA (Associação para Prevenção e Tratamento da Aids).

Warhol e Haring

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philip glass em são paulo

Abro mensagem de um amigo carioca e ele me diz que está vindo pra São Paulo pra ver Philip Glass num vernissage na Pinacoteca. PHILIP GLASS???!!! Claro que fiquei maluco e corri atrás da informação. O site da Pinacoteca não tem muita informação sobre ingressos e horários, mas tem um video bacana aqui. Descobri que Glass vem à América do Sul pra apresentações amanhã (30/7) em Quito, Equador, e no dia seguinte na abertura da instalação “A Soma dos Dias”, que fez em dupla com o artista plástico Carlito Carvalhosa.

O público em geral poderá conferir duas apresentações de Philip Glass nos dias 2 e 3 de agosto – segunda e terça. Na segunda ele toca piano solo e na terça é acompanhado por alunos da Escola de Música de São Paulo Tom Jobim.

Philip Glass é um dos compositores mais influentes no fim do Século XX, um ícone do pós-modernismo e principalmente pelas composições minimalistas. Na Wikipedia ainda tem umas curiosidades que eu nem imaginava: “Entre as óperas produzidas por Glass podemos citar Satyagraha (1980) baseada na vida de Mahatma Gandhi que inclui diversos mantras. Compôs também a ópera “Itaipu” (1989) referindo-se a usina de mesmo nome que possui texto em guarani. Também é dele “Days and Nights in Rocinha” (1997) que foi escrita após uma visita de Glass a favela da Rocinha.” Glass também compôs trilhas famosas como a da sequência de filmes de Godfrey Reggio, a começar por Koyaanisqatsi.

IMPERDÍVEL!

Pra terminar, o Lísias do blog DeepBeep aparece com três fitas K7 com sets do Marquinhos MS. Com direito a letra do falecido e estimado DJ na capa das fitas. Em breve no ar!!!

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o dogma da ikebana

Acompanhe esse post ouvindo a música acima – “Porrada” (Titãs)

Milhares de imigrantes ilegais estão deixando o Arizona antes que a nova lei anti-imigração entre em vigor na quinta-feira. União Européia diz que o Kosovo é  problema dela e se a Sérvia quiser entrar na UE vai ter de viver em paz com os kosovares e aceitá-los como nação independente. Fernando Collor está na frente na campanha ao governo de Alagoas. Por enquanto, Paulo Maluf terá sua candidatura impugnada através da lei “Ficha Limpa”. PT pede à Folha de S.Paulo que tire do ar – censura? – página com vídeo no qual o candidato a vice do Serra diz que o partido de Lula tem ligações com as FARC e narcotráfico. WikiLeaks detona guerra americana no Afeganistão divulgando mais de 90 mil documentos que mostram a verdade bem mais crua e terrível.

Esses foram algumas das manchetes que me chamaram a atenção hoje pelo noticiário diurno. Mas vamos às amenidades porque de complicada já basta nossa vidinha cotidiana.

Dogma 95 – Lembro da náusea que senti ao assistir “Os Idiotas”, de Lars von Trier. Me esforcei para continuar vendo aquele filme com câmera-na-mão balançando sem parar. A náusea é aliviada por um breve momento, logo no início do filme, quando se descobre o golpe que um bando de amigos dá no status quo da sociedade dinamarquesa explorando a idiotice para sobreviver. Um riso rápido e irônico e o navio de von Trier continua a navegar e a nos jogar contra nossas hipocrisias.

E pra rever essa saga cinematográfica que começou em 1995 com o movimento Dogma, rola entre hoje 27/7 e 3/8 a mostra “Dogma 95 – 15 Anos Depois” na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Estão em cartaz os títulos “Os Idiotas”, “Corações Livres”, “Mifune” e “Nas Suas Mãos”. Como diz Inácio Araújo na Folha de S.Paulo hoje, é uma pena que o ótimo “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg, não esteja na mostra; é um soco no estômago. No último dia – terça 3/8 – acontece projeção de “Os Idiotas” seguida de palestra de Bodil Marie S. Thomsen, professora associada de Cultura e Mídia no Departmento para Estudos Escandinavos da Universidade Aarhus, Dinamarca.

Ikebana – Toda vez que vou à estação do metrô Liberdade dou uma olhada na ikebana (ou kado) exposta na vitrine perto das bilheterias. O arranjo floral é uma das mais belas artes japonesas, ao meu ver. E a partir de hoje até quinta-feira tem uma exposição de 60 arranjos florais no Centro Cultural São Paulo. A mostra é comemorativa dos 50 anos de fundação da Associação Floral Kado Iemoto Ikenobo da América da Sul.

Na Wikipedia consegui um bom texto sobre essa arte nipônica: “Ikebana (em japonês: 生け花, “flores vivas”) é a arte japonesa de arranjos florais, também conhecida como Kado (em japonês: 華道 ou 花道, Kado) — a via das flores.

Ikebana é uma arte floral que originou na Índia onde os arranjos eram destinados a Buda, e personalizada na cultura nipônica, pela qual é mais conhecida. Em contraste com a forma decorativa de arranjos florais que prevalece nos países ocidentais, o arranjo floral japonês cria uma harmonia de construção linear, ritmo e cor. Enquanto que os ocidentais tendem a pôr ênfase na quantidade e colorido das cores, dedicando a maior parte da sua atenção à beleza das corolas, os japoneses enfatizam os aspectos lineares do arranjo. A arte foi desenvolvida de modo a incluir o vaso, caules, folhas e ramos, além das flores. A estrutura de um arranjo floral japonês está baseada em três pontos principais que simbolizam o céu, a terra e a humanidade, embora outras estruturas sejam adaptadas em função do estilo e da Escola.”

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Pra quem ainda não viu o vídeo com o Sr. Indio da Costa, candidato a vice-presidente da chapa de José Serra, falando que o PT tem ligação com narcotráfico e FARC, ei-lo abaixo.

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viagem marcada; visibilidade na blogsfera

Começo a semana com viagem marcada pra Floripa no fim de agosto pra rever a família e amigos, e descansar um pouco da loucurama de São Paulo, comer uma tainha assada e curtir a praia com o bom e velho Vento Sul que sopra na Ilha de Santa Catarina . E ainda ver como anda o livro “Schwanke – a seriação iluminada” sobre o artista joinvilense Luiz Henrique Schwanke, que deve ser lançado em setembro.

O primeiro livro sobre o artista que foi o mais importante da Geração 80 em Santa Catarina será distribuído para bibliotecas municipais, escolares, de universidades e museus catarinenses, já que o projeto tem apoio cultural do Prêmio Edital Elisabeth Anderle (do Governo de SC). O Instituto Schwanke também está apoiando o projeto que tem como linha de investigação a repetição ou seriação em diferentes aspectos na obra do artista. A coordenação editorial é da Kátia Klock, que assina a edição comigo e a com a editora de arte Vanessa Schultz. O livro terá encartado dvd com o documentário “À Luz de Schwanke” que co-dirigi em 2008 com produção também da Contraponto.

Esperamos fazer um lançamento em São Paulo também, na época da Bienal, já que temos texto de Agnaldo Farias, um dos curadores da mostra na qual Schwanke participou em 1991. Os críticos de arte Fabio Magalhães e Frederico Morais e a jornalista Néri Pedroso também terão textos publicados no livro, que contará com croquis, anotações, bilhetes, projetos, fotos e reproduções de obras de Schwanke, como o famoso “Cubo de Luz” montado na 21ª Bienal de São Paulo, em 1991.

Cubo de Luz, na 21ª Bienal de São Paulo, 1991

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Blogsfera – Não é que pra minha total surpresa o +1teko é destaque hoje no blog SuaVerdade, da marca de jeans Iódice!? Fico superlisonjeado com o texto elogioso. Você leu aqui sobre a nova coleção da Iódice, eu garanto que o jeans é muito bom. E recentemente recebi em primeira mão algumas fotos do making off do editorial da nova coleção de verão da marca. O tema ‘água’ inspirou o fotógrafo Jacques Dequeker, o o stylist Giovani Frasson e o maquiador Max Weber. Os modelos são gente como a gente, segundo a assessoria da grife: as gêmeas Bia e Branca Feres, Lucas Corduro, Taina Barrionuevo e Camila Fremder. Não sei se são tão assim parecidos com outros mortais, mas é gente que faz e aparece.

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Blogsfera 2 – O ótimo DeepBeep publica hoje página com Johnny Luxo, lendária figura clubber, na seção Mixtape. O set da fofa tá babadu!!! Texto e entrevista minhas. A Johnny dá um xoxo na moda brasileira e elege “A Roda”, da Sarajane, como novo velho hit de verão!!! Adoro colaborar com o DB, um dos blogs mais bacanas sobre música no país.

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live music acts: dexterz

Amon + Junior + Julio = Dexterz

Tem dias que eu não aguento e falo mesmo, e hoje… Meu Deus! Tem cada coisa que a gente vê e ouve e que não quer acreditar! Acabo de ler a notícia que Júnior, o irmão da Sandy, resolveu enveredar pela live performance eletrônica no projeto Dexterz ao lado do DJ Julio Torres e do violinista Amon Lima, que anteriormente se intitulavam Crossover. Valha-me, Deus! A mistura não podia ser mais explosiva! Ótima para animar cruzeiros e festas como as do Big Brother Brasil 10 (veja vídeos abaixo).

Junior não sabia o que fazer depois da infância marcada como par de sua irmãzinha na dupla pop-sertaneja Sandy & Junior e foi tocar bateria com uma rapeize sem maiores perspectivas na banda Nove Mil Anjos. Não sobrou um querubim pra contar como foi a descida ao inferno. Agora ele está seduzido pela eletrônica, quer dizer, pela mistureba de violino brega com electronic prog dance music. No final das contas, a bateria dele é um dos pontos altos do show do tal trio Dexterz. (De onde tiraram esse nome?) Enfim, os shows mais recentes aconteceram na Disney, em Orlando, e não tenho notícias se Mickey, Pateta e Pluto foram ver esse petardo da e-music (esse termo é uma das pérolas do vocabulário da música eletrônica que muita gente gosta de usar, como a tal ‘ música eletrônica de qualidade’).

Esses projetos de live acts me deixam perplexo, na maioria das vezes são muito chatos e tendem a uma batida à la progressive house ou comercial dance music, mas conseguem arrebatar corações e mentes nas pistas de dança. Falta de informação dos DJs/músicos ou do público? Pasteurização da música eletrônica? Fórmula de sucesso e dinheiro fácil? Entre as muitas duplas eletrônicas que lembro estão Leozinho & Parcionik, que não é dupla sertaneja, mas de e-music. Vácuo Live não é nenhum invento da Nasa, mas uma dupla de e-music curitibana com uma fofa no microfone – “projeto pioneiro de live vocal house no Brasil”. Tem as Famele Angels que tocam “sexy house music” pra derreter os bofes. Mais recentemente Max e Iggor Cavalera voltaram às boas e também fundaram um live act Cavalera Conspiracy, mas aqui a palavra de ordem é rock’n’roll pesado!

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kiriDJinha 7 – o retorno

kiriDJinha retorna ao bar Volt!

A festa agora é na quartas-feiras quinzenalmente, e a primeira é nessa semana!
Atum e eu adoramos tomar o primeiro drink da noite no Volt. E o staff da casa é a melhor companhia ever! Então pra fazer clima “lá em casa”, nós chamamos pra volta da kiriDJinha ao bar dos neons com os top DJs in da house – Celda, Tamara, Fábio, Marcinho e Farelo. Diz que eles vão tocar seus sets mais kiridjinhos. #Happyhourfeelings
kiriDJinha 7 – O Retorno
Bar Volt
Rua Haddock Lobo, 40
Quarta 21/7 – 21h às 02h
Consumação mínima: R$ 15
DJs: Atum, Ivi Brasil, Celda, Fábio, Tamara, Farelo, Marcinho

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my essencial clubbing weekend in berlin (2007)

Esse texto foi publicado originalmente na revista DJ Mag brasileira em janeiro 2008, e foi escrito em dezembro de 2007. Estou republicando agora porque o número de acessos a outro texto sobre o club Berghain está com muitos acessos aqui, então aqui vai mais um pouco sobre clubbing em Berlim.

A contracultura da Berlim ocidental, cultuada por David Bowie e Wim Wenders, mudou-se para o leste. Lá onde o comunismo era encoberto pela cortina de ferro política e pelo muro físico que dividiu a capital alemã, instalam-se modelos da cultura globalizada. Galerias de arte, produtoras musicais, bares, cafés, ateliês, estúdios, selos fonográficos, brechós e a imaterialidade da internet; estão todos lá entre os distritos de Mitte, Friedrichshain e Kreuzberg. A parada obrigatória do metrô agora é Alexanderplatz com sua imponente torre de comunicação, e não mais a ocidental Zoologischer Garten (ou apenas Zoo) onde Christiane F se drogava e se prostituía nos anos 1970. Desde que os 47 quilômetros do muro que separavam capitalistas e comunistas desabaram em 1989, a cidade vem experimentando uma reviravolta cultural que culmina nos primeiros anos do novo milênio e que deve durar até o começo dos anos 10 do século 21. Centenas e centenas de artistas – principalmente DJs e produtores – migraram para a cidade, que hoje é conhecida como capital mundial da música eletrônica.

Numa quinta-feira à noite cheguei a Berlim. Zero grau com certeza. Vinha de Bremen com DJ Atum que havia se apresentado em Amsterdã dias antes. Fomos direto para Friedrischshain encontrar Ferri Borbás, produtor e manager do selo digital Autist e nosso anfitrião. Conheci Ferri via Skype, coisas da aldeia global. Poucas horas depois da nossa apresentação presencial já estávamos fervendo no moderno bar Sanatorium, um dos preferidos do povo da região oriental e atual trendy da capital alemã. O primeiro convite nessa essential clubbing trip foi para conferir Anja Schneider no club Weekend no sábado. Seria o início da residência mensal do selo Mobilee, da própria Anja, no Weekend. Antes de dormir recebo mensagem de Holger Zilske, o homem por trás do projeto Smash TV que tocou no Brasil duas vezes. O convite era para ir ao club Watergate conferir a performance de Ellen Allien no dia seguinte. Dormi com os anjos.

Ir a Berlim para ouvir, dançar e entender o techno criado lá não é só ficar na jogação. Na sexta-feira pela manhã já estava na mítica Alexanderplatz, ponto nevrálgico da cidade que fica no antigo lado oriental. Na saída do metrô, ergue-se a fantástica torre de comunicação de mais de 300 metros de altura e com um imenso globo espelhado espetado no centro. Alexanderplatz é uma imensa pista de dança! Daí vale um passeio em direção ao Portão de Brandemburgo, passando antes por uma série de museus, avenidas e palácios até o Tiergarten. A grandeza urbanística equipara-se ao poder econômico-científico-artístico germânico. Entendi ali um pouco mais sobre o povo alemão. O néon com a frase “All art has been contemporary”, que está atualmente na fachada do Altes Museum (Museu Velho), polemiza com o conteúdo da casa, um valioso tesouro de peças egípcias da antiguidade. Novo e velho são um só em Berlim, neon-art e arte egípcia, igrejas góticas e prédios modernos, jovens dançando ao som de minimal techno em antigos redutos comunistas.

Party people – Sexta-feira à noite. Em Friedrischshain começa a agitação atrás das festas mais badaladas. Cada um fala uma coisa, mas o convite já tinha sido feito: Ellen Allien @ Watergate. Dentro do club encontramos Holger Zilske já contando novidades sobre o novo álbum de Ellen, que estão produzindo em parceria e deve sair em abril. Pouca coisa tinha sido feita e Holger já estava participando de outros projetos e (tentando) compor suas próprias tracks. O club Watergate fica na beira do Rio Spree, a pista inferior está na altura da água e uma imensa ponte medieval se ergue bem em frente. No andar de cima, a iluminação movimenta milhares de leds e os ansiosos pela chegada da musa do minimal e dona do selo BPitch Control. Ellen não demorou a aparecer com dois roadies carregando pesados cases, pediu licença ao DJ Daniel Bell (que fez um set correto para aquecer o povo) e começou a esmerilhar pérolas do tão elogiado estilo minimalista do BPitch Control. A DJ se divertia em sua terra natal, homenageada por ela nos álbuns Berlinette e Stadtkind. O que ela tocou? Não sei dizer títulos de músicas ou rótulos de gêneros, mas meu corpo e meu espírito agradeceram por estarmos lá.

A jaca berlinense rola mesmo é de sábado para domingo. O vento frio cortava a noite e a gente ía se aquecendo pelos bares esfumaçados do Mitte até chegar ao Weekend, no topo de um edifício de 15 andares em Alexanderplatz. Era a primeira festa mensal do selo Mobilee no Weekend e a convidada não poderia ser ninguém menos que Anja Schneider, dona do Mobilee e de um sorriso simpaticíssimo. Ela fez um set animado, o povo gritou, a DJ acelerava no minimal indo cada vez mais para o techno sem perder o rebolado e o charme, e inserindo pitadas housy. Noutro dia, Anja me confessaria – “acho que meu som passou de algo housy para um lado mais techno, mas não gosto dessas definições de estilos, afinal é tudo house”. Mas nem todos concordam ou concordariam com ela, como o produtor Paul Brtschitsch que tocou ao vivo, logo depois dela, um techno mais pesado e energético, porém não menos minimalista. Guarde bem esse nome estranho, Paul Brtschitsch. Em Berlim ele é considerado um novo prodígio da eletrônica. Depois de parcerias com André Galluzzi e alguns EPs elogiados, Paul está atualmente compondo com Holger Zilske para um novo live p.a. e produzindo o álbum de Anja Schneider.

Mobilee / Autist – “Não gosto de decidir tudo sozinha. É ótimo que o Paul esteja comigo produzindo meu primeiro álbum”, confessa Anja Scheneider. “Sempre preciso de alguém ao lado quando estou produzindo, primeiro porque não tenho tempo para saber os segredos e truques da parte técnica, e também porque preciso de alguém para dizer se devo continuar ou parar tudo. Preciso de opiniões diferentes para decidir em conjunto”, explica. A grande jogada de Anja nesse empreendimento é o retorno pessoal. “A melhor coisa em trabalhar com jovens talentos é poder vê-los crescer e então receber de volta uma energia fundamental”, filosofa a DJ.

Uma das crias mais queridas do Mobilee é a dupla Pan-Pot que lançou em outubro o álbum “Pan-o-rama”, primeiro álbum da dupla e do selo. Tassilo Ippenberger e Thomas Benedix são muito bem-tratados por Anja na nova sede do Mobilee, no meio do moderno e descolado distrito Mitte. No estúdio, a dupla tem tudo o que precisa para criar climas pesados e dançantes, como para o remix do primeiro single do primeiro álbum da patroa, que tive o privilégio de ouvir em primeira mão. O single deve sair entre janeiro e fevereiro, e o álbum chega ao público em maio. Outros nomes que lançam no Mobilee e no subselo Leena são Jennifer Cardini, Sebo K, Exercise One, GummiHz, Holger Zilske e Marco Ressman.

Enquanto o Mobilee tem sede com estúdio e lança vinis (e alguns CDs e mp3) todos os meses, o selo Autist existe apenas na rede lançando faixas digitais. “Os arquivos digitais são o suporte mais apropriado para o século 21, e no mundo do techno é tudo muito rápido e não dá pra ficar esperando meses pela prensagem de um disco”, argumenta Ferri Borbás, manager do Autist. O selo se sustenta linkado a comunidades virtuais para divulgar os EPs virtuais que são vendidos em vários sites. Colaborações com videoartistas e cineastas também é boa moeda de troca. “Gastasse pouquíssimo e o resultado é garantido”, afirma.

O destaque do Autist é o produtor Boris Brejcha de apenas 22 anos e que vive isolado em uma pequena cidade no sudoeste da Alemanha. Sem contato direto com a eletricidade clubbing de Berlim, Boris cria o seu “freak modern electro techno” em casa e faz dancinhas malucas (procure no MySpace!) para testar se a música é boa para a pista. Em janeiro ele vem ao Brasil para algumas apresentações! Uma boa maneira de fugir do inverno europeu.

A neve – Lá do alto do Weekend a vista é incrível e para meu deleite a neve começou a cair pouco antes de Anja terminar seu set. Estupefato pela neve, pelo drink de vodca com pepino e pelo som, não podia ainda imaginar o que seria o Berghain / Panorama Bar. A neve caía silenciosamente sobre Alexanderplatz quando pegamos um táxi para o Berghain, templo do techno e da loucurama berlinense. Na neve, o povo gritava para entrar enquanto enfrentava uma longa fila às 5h matina. Todos migram para o Berghain nessa hora, quando os outros clubs fecham. Lá dentro a principal regra, estampada bem na entrada, é: “cameras are not allowed”. Melhor assim!

O Berghain e o Panorama Bar ficam em uma velha usina de energia elétrica, em Friedrischshain. Berghain é a pista principal, o techno é o som, Ben Klock é o DJ residente, o pé direito é imenso e em várias darkrooms se faz exatamente tudo em termos de sexo. O Panorama Bar fica na parte superior do prédio e o clima é mais relaxado, em termos musicais é claro. Batidas mais minimalistas e mesmo houseadas movimentam uma turba em constante jogação. Ferveção pouca é bobagem! O mix de estilos e comportamentos é absurdo, parece que todos os grupos sexuais, raciais, musicais, fashionistas estão ali representados. Ecletismo democrático, liberdade desenfreada, hardcore sexmachine, fucking techno.

Naquela noite/manhã os franceses Joakim (dono do selo Tigersushi) e Chateau Flight mais o canadense radicado em Berlim Konrad Black se revezaram na cabine de som do Panorama. Como parar de dançar? Todos corriam entre um techno minimalista e dançante, grooves tímidos e trechos mais experimentais. Uma levada mais house à francesa complementava o ambiente. O Berghain / Panorama é onde o povo que estava em outros clubs se encontra, é onde se comenta das festas, bebe-se pencas e dança-se até domingo à tarde. O Berghain fervia ao meio-dia quando da pista brindamos com Ben Klock suas últimas tracks. Logo estávamos conversando e ele me olhava serenamente enquanto eu confessava que aquele era afinal o club mais incrível do mundo no qual já estive.

P.S.: Só pra lembrar, o bafo é tão forte no Berghain / Panorama que nem o club tem fotos de divulgação. Só mesmo na minha memória…

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