nuovo fascismo – nuovo apartheid

Gamberi alla Foggia (penne e camarões)

Gamberi alla Foggia (penne e camarões)

Em janeiro assisti ao filme Gomorra, de Matteo Garrone, e fiquei estarrecido com a estética documental, mas fiquei mais surpreso com as condições em que as pessoas viviam naquele subúrbio italiano, provavelmente perto de Nápoles. Uma mega estrutura habitacional é na verdade um favelão de primeiro mundo que a gente nunca vê quando está lá – porque como os gringos aqui no Brasil, não se aventura fora das cercanias turísticas. Mas se a máfia impera no filme, vejo que o xenofobismo está cada vez maior na Itália, a começar pelo primeiro-ministro bilionário e dono de canais de TV Silvio Berlusconi. Logo que Barak Obama foi anunciado presidente dos Estados Unidos, o capo Berlusconi saiu com um comentário jocoso e preconceituoso sobre o tom de pele bronzeado do presidente negro. E depois repetiu a dose fascista sobre o Barak Obama.

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Agora leio no diário espanhol El Pais a notícia que o prefeito da cidade de Foggia (nas fotos acima), no sul da Itália e às margens do Mar Adriático, colocou à disposição dos 800 imigrantes africanos negros que ficam numa espécie de campo de refugiados, uma linha de ónibus exclusiva. Notícia boa, né? Parece que agora eles tem um serviço especial. Foi uma boa medida para separar os imigrantes negros – que atravessam o Mar Mediterrâneo constantemente em busca da riqueza italiana/européia – dos italianos nativos brancos – que se desdobram para enfrentar a estagnação econômica de seu país. Quem decidiu pelo nuovo apartheid foi o chefe de polícia, que depende do Ministério do Interior. “Para a empresa local de ônibus e para o prefeito, de centro-esquerda, pareceu uma medida razoável”, diz a reportagem.

Uma voz se levantou contra, o governador da Puglia, região admnistrativa onde está Foggia. O governador Nichi Vendola disse que a medida lhe parece um “apartheid intolerável” e pediu ao prefeito que se os serviços atuais são insuficientes então que sejam reforçados “para todos”. “A linha para extracomunitários tem todo o sabor de separação, deve ser abolida o mais cedo possível”, disse. O tunisiano Habib Ben Sghaier, presidente da Associação de Comunidades Estrangeiras de Foggia, considerou a medida “puro racismo” e disse que fica difícil acreditar que tenha sido aprovada pela delegação de governo. Já a ONU… Através de sua agência para refugiados na Itália, defendeu o serviço e considera que não é discriminatório. A porta-voz da agência disse que “o ônibus que conecta o Cara de Borgo Mezzanone (centor de refugiados africanos que esperam regularizar a situação na Itália) com a estação de Foggia está ativo há vários anos. Se a linha fosse a única utilizável e fosse proibido aos imigrantes utilizar outros meios públicos, seria um fato gravíssimo. Mas segundo a informação que temos, não é essa a situação.”

Para esclarecer, as linhas para brancos e negros foram feitas porque havia superlotação dos ônibus e uns acusavam os outros de furtos.

Do outro lado da península itálica, no verdejante Mar da Ligúria perto da ensolarada ilha da Sardenha, Berlusconi e seus comparsas preparam a próxima reunião do G20 que acontecerá em julho. No alto verão europeu, os líderes dos países mais ricos – incluindo o presidente Lula – vão se reunir em um navio atracado na ilha de Santo Estefano. O bilionário italiano Gianluigi Aponte, proprietário da linha de cruzeiros MSC, ofereceu de graça o maior cruzeiro de luxo da Europa, o La Fantasia, do tamanho de três campos de futebol, para cerca de 1.300 VIPs. Irão à festança os africanos Hosni Mubarak, ditador egípcio, e Muamar Gadafi, ditador líbio, que não precisarão usar um navio extra como os imigrantes africanos do Foggia. Eles são bem-vindos porque têm petróleo e gás pra abastecer a Europa (no caso, a Líbia) e estão envolvidos nas estratégias políticas com o Oriente Médio.

Berlusconi está ansioso em oferecer ao menos um jantar em sua Villa Certosa, a cerca de 30 km da ilha Maddalena, perto da Sardenha. Uma autoridade descartou essa possibilidade. Diplomatas disseram que ainda é uma possibilidade. Alguns diplomatas disseram que sua maior preocupação era a ostentação de Berlusconi, famoso por suas piadas estranhas e travessuras. Nesta semana em Londres, Berlusconi  inseriu-se entre Obama e Dmitry Medvedev, da Rússia, para a foto grupal, demonstrando novamente sua ambição. Os italianos oscilaram entre divertidos e chocados pelas cenas que capturaram Berlusconi gritando “Senhor Obama!”, após a fotografia no Palácio de Buckingham, levando a Rainha Elizabeth II a virar-se e perguntar: “Por que ele tem que gritar?”

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Acima, o jornalista Roberto Saviano e cena do filme Gomorra

E ainda quero ler o livro Gomorra que deu origem ao filme. O jornalista Roberto Saviano, autor do best seller, está escondido e sob proteção da polícia desde 2006. A Camorra italiana, organização criminosa sediada em Nápoles com ramificações em todo o mundo, prometeu matá-lo até o Natal de 2008, mas não conseguiu cumprir a promesse. O nome do livro, Gomorra, se aproxima a cidade bíblica dos pecadores da Camorra italiana.

E quando visitei Milão no final de 2007 encontrei alguns brasileiros que moravam no albergue da juventude porque, segundo eles, mesmo com passaporte italiano era descrimiandos e não estava nada fácil conseguir um trabalho. Meses depois, li sobre a decadência da sociedade italiano, sobre os trintões que não conseguem sair da casa de seus pais porque os alugueis são caros, porque não têm bons empregos, porque ficam mamando no governo fazendo infinitos cursos de pós-graduação que no final não valem nada, por puro comodismo, porque a sociedade italiana parece não ter para onde se expandir. Uma verdadeira falta de esperança para com o futuro.

No domingão, coma sua macarronada e reflita sobre os problemas da Itália e do mundo, que são muitos… Bom final de semana.

P.S.: Leio agora no site da Editora Abril:

O ator italiano Giovanni Venosa, 31 anos, foi detido na Itália acusado de extorsão, informou a agência Ansa. Venosa atuou no filme Gomorra como um chefe da máfia e agora é associado a ela na vida real. Além dele, outros atores que participaram do longa já haviam sido presos por suspeita de envolvimento com a máfia. Salvatore Fabbricino é acusado de tráfico de drogas e Bernardino Terracciano, de chefiar operações mafiosas.

3 Comentários

Arquivado em cidade, cinema, internet, literatura

3 Respostas para “nuovo fascismo – nuovo apartheid

  1. Zozo

    Eu nao gostei muito do filme, mas o livro eh tudo….

  2. Assisti o filme e também fiquei chocada… Agora choquei mais ainda com essa história dos atores envolvidos com a criminalidade… Caramba! Mas eram atores mesmo??? Ou moradores locais pegos para atuar no filme????

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